30.3.08














postal antigo de Coimbra, sem referência de data

Felizes as cidades que descobrem o seu rio! O longo rio, tranquilo e cinzento, cuida das pessoas. Basta pousar o olhar preguiçoso sobre as suas àguas e ficar para ali… até o homem do carro atrás nos apitar e nos gritar que o semáforo mudou para a cor da realidade.

28.3.08
























A Casa de Mariduque
de Fernando Botero
1970
180x186cm

27.3.08























© Augusto Baptista
O Canto do Cisne, A Escola da Noite

Todos os teatros têm um fantasma. O nosso é dos simpáticos, limita-se a ranger um pouco, quando ficamos a trabalhar sozinhos à noite e a mudar alguns objectos de lugar, visto que é um arrumadinho compulsivo.
Hoje decidiu tirar a casaca e as luvas da naftalina e disse-me que era o tal dia do teatro, que devíamos comemorar.
A nossa companhia, errando por aí, fora de portas, deixara-nos ficar com a responsabilidade de ultimar várias coisas para uma estreia muito próxima. O meu amigo, que não queria saber de coisas sérias, colocou o champanhe no frigorífico, sacudiu as cortinas de veludo e ligou os projectores no máximo.
Eu gritei-lhe que talvez estivessemos a exagerar, mas ele encolheu os ombros e prosseguiu nas suas inúmeras tarefas, entre as quais indicar-me um vestido e uns sapatos.
Que nem pensasse! — O vestido não me servia e os sapatos altos… vermelhos… Abanou a cabeça e percebi que não havia nada a fazer. Muito contrariada, lá me encaixei nos meus adereços cerimoniais.
Tudo parecia pronto! Os copos das estreias, a música no máximo e o champanhe que se foi bebendo, entre memórias desfiadas de espectáculos vários e dos meus actores preferidos…
Os teatros estão sempre cheios!

















A Escola da Noite em Braga, no Teatro Circo, 21.30h

26.3.08





















Sem título (Anjo Caído)
de Jean-Michel Basquiat / SAMO
Nova Iorque, 1981
168 X 197,5cm

23.3.08

em Coimbra























Exposição do belga Michael Borremans
comissariada por Delfim Sardo
no CAV / Centro de Artes Visuais

até 8 de Junho
terça a domingo / das 14h às 19h

22.3.08
























Durante anos, a Páscoa foi sinónimo de roxo mórbido, relacionado com a cor e a austeridade das festividades religiosas da minha infância, mas hoje lembrei-me de um branco, muito branco, dos bordados e das amêndoas de açucar da minha madrinha.
A minha madrinha Irene, Ireninha, como lhe chamavam, enchia-me de mimos e beijos sonoros e mais uns caracois, que conseguia construir, com rara mestria barroca, no cimo da minha cabeça, sem que eu pudesse manifestar a minha fúria.
Tinha um gosto especial por flores, bordados e bolos. Por coisas manuais, que a minha mãe também foi cultivando, e que estão lá por casa, sempre ao alcance da inspiração.

21.3.08

a luz
é outra a luz
o corpo sem limites
fora de si
deslimites
deslimites na cor
printemps
verde avermelhado de azul

20.3.08

papel

Pego na folha de papel, onde o bolor do poema se infiltrou, levanto-a contra a luz, distingo a marca de água (uma ténue figura emblemática) e deixo-a cair. Quase sem peso, embate na parede, hesita, paira como as folhas das árvores no outono (o mesmo voo morto, vegetal) e poisa sobre a mesa para ser o vagaroso estrume doutro poema.


Sobre o lado esquerdo, Carlos de Oliveira

16.3.08















Pedaço de seda natural; produto do mais pequeno empreendimento realizado no sector têxtil, sem capital, com recurso a uma caixa de sapatos, algumas folhas de amoreira e quatro operários esforçados.
Faliu! Não resistiu às leis do mercado, ao "capitalismo desenfreado",
à rigidez socrática do contrato de trabalho, à avaliação contínua dos subordinados e à falta de jeito da administração.

15.3.08

mimo urbano

A Dona Conceição toca à minha campaínha, todas as sextas de manhã cedo, com as suas couves, limões, salsa, flores e demais coisas da sua horta, que cultiva "sem produtos" e que sempre me vendeu, sem que eu tivesse oportunidade de recusar.
Insiste em tratar-me por doutora. Mesmo dizendo-lhe que não acabei o curso, diz que não tem importância nenhuma.
Não percebe nada de contas e tem uma má relação com o euro, por isso os preços são sempre arredondados. Tudo custa um euro. Quando são coisas pequenas, cinquenta cêntimos.
Quando não estou em casa, as coisas ficam penduradas na maçaneta da porta. Conta-me sempre as suas desventuras familiares e as histórias da velhice e das doenças e do raio do sistema de saúde e da reforma que não dá para nada.
Pergunta-me sempre pelo "menino".
É claro que, há muito, deixou de ser uma relação comercial, a Tica come as flores que me vende e, nos períodos em que não posso fazer refeições em casa, as coisas apodrecem no frigorífico.

14.3.08

escrita secreta
























O (meu) miúdo (biribinhas, reminhento, segismundo, "ortôncio", arquicoiso) que aqui vai, em marcha apressada, faz hoje dezoito anos!…
assinado; senhor zero

…e isto é um protesto!

12.3.08















MATÉRIA DE POESIA
espectáculo recital com poemas de Sophia de Mello Breyner,
Carlos de Oliveira, Adélia Prado, Manoel de Barros e Alexandre O'Neill

A Escola da Noite no bar EME CLUB
13 de Março 23h














© Joana Monteiro
COIMBRA EM BLUES
13 14 15 de Março
Teatro Académico de Gil Vicente

11.3.08















uma margarida de cor indefinida e outras no jardim do marinheiro

8.3.08

comércio tradicional

Passar no Mercado.
Pequeno almoço no café Santa Cruz, com o jornal Público.
Praça Velha; paragens obrigatórias na papelaria Marthas e no Turíbio de Matos. Compro esferográficas BIC laranja e dois postais para enviar aos meus sobrinhos, na primeira, e tintas para tingir tecidos, na segunda.
Subida ao Quebra Costas e espreitar as lojas XM e Mau Feitio, onde não posso comprar nada.
Almoçar no Restaurante Zé Neto; açorda de coentros e peixe frito e, depois, entrar na loja russa, a dois passos. Posso comprar bolos de cereja.
Tomar café e preguiçar nos sofás fantásticos do Hotel Astória.
Regressar a casa no 4 e parar na loja Consigo, onde também não posso comprar nada.
Fazer o resto do percurso a pé. Comprar pão e requeijão na Padaria Tosta Rica e flores numa das mercearias dos Olivais.
Passar o resto da tarde no sofá.

Este é o melhor princípio de semana, ao sábado de manhã.

6.3.08

receitas improváveis

Li algures que uma infusão de erva-luísa acalma o cio dos gatos (das gatas!)
E quem é que os convence a provar uma chávena de chá?
O bicho lá de casa respondeu-me que ainda não eram cinco da tarde e que o meu serviço de chá era muito decadente.
E foi-se pelo corredor, a minhaurrrrar. Desta vez, pareceu-me que também se ria.

loja de tecidos













no Largo da Portagem

5.3.08

Belisa no jardim de Lorca

zelo

Quando o lobo vai com cautela rondar algum curral de gado, se por acaso puser o pé em falso de modo a fazer barulho, morde a sua própria pata, para corrigir o seu erro.

Bestiário, Fábulas e Outros Escritos
Leonardo da Vinci
Assírio & Alvim

avareza

O sapo alimenta-se de terra e está sempre magro porque não se enche; tamanho é o medo de que a terra lhe falte.

Bestiário, Fábulas e Outros Escritos
Leonardo da Vinci
Assírio & Alvim

4.3.08
















(…) a natureza deleita-se tanto na mudança, (…) que até entre as árvores do mesmo tipo não se encontra uma planta que se assemelhe à outra (…) Assim, presta atenção e varia tanto quanto puderes.

Leonardo da Vinci

1.3.08

caruma

Arte comunitária, coreografia de Madalena Vitorino e música de Carlos Bica.
1, 2 e 3 de Março, no Teatro Académico de Gil Vicente e não se pode perder.

O universo sensível e inesperado das histórias pequeninas dos homens.
Lembrei-me das incursões, pelos pinhais, com o meu pai e de ter pisado um tapete de caruma, húmido da chuva de Outono.
Os bons momentos fazem-se, quando alguém consegue concretizar o nada fantástico das nossas memórias.