Alguns dos cerca de oitocentos murais documentados no Centro 25 de Abril da Universidade de Coimbra.
25.4.09
16.4.09
(…) acho que de facto não fui nada infeliz. Mas não me lembro muito bem. Não tinha uma consciência exacta do que acontecia à minha volta. Todavia, lembro-me de não falar muito, de ser uma menina timidíssima. Vivia naquele restaurante lindo… Um restaurante é um lugar maravilhoso para uma criança… havia sempre muita gente e sucediam sempre coisas muito estranhas. É um backgraund que nunca desejei perder. às vezes sentia-me triste, não sei porquê. Era uma sensação, uma nostalgia de alguma coisa…
É verdade que passava muito tempo debaixo das mesas desse restaurante. Mas só porque nunca queria ir deitar-me, queria sempre ficar levantada até tarde. Por isso, enfiava-me debaixo das mesas para que os meus pais se esquecessem de mim e não me mandassem para a cama.
(…) Acho que tive sempre o complexo dos pés. Sempre tive pés enormes, e desejava tanto ter pés pequenos e flexíveis como as mãos. O meu pai, lembro-me bem, tinha uns pés muito, muito grandes. E eu já calçava sapatos com o número 41 aos doze anos, já tinha os pés que tenho hoje, mas nessa época tinha muito medo que continuassem a crescer.
À noite, na cama, rezava a Deus para que os meus pés não ficassem tão compridos como os do meu pai. (…)
excerto de entrevista a Pina Bausch, O Teatro de Pina Bausch, Leonetta Bentivoglio, edições ACARTE, 1994
É verdade que passava muito tempo debaixo das mesas desse restaurante. Mas só porque nunca queria ir deitar-me, queria sempre ficar levantada até tarde. Por isso, enfiava-me debaixo das mesas para que os meus pais se esquecessem de mim e não me mandassem para a cama.
(…) Acho que tive sempre o complexo dos pés. Sempre tive pés enormes, e desejava tanto ter pés pequenos e flexíveis como as mãos. O meu pai, lembro-me bem, tinha uns pés muito, muito grandes. E eu já calçava sapatos com o número 41 aos doze anos, já tinha os pés que tenho hoje, mas nessa época tinha muito medo que continuassem a crescer.
À noite, na cama, rezava a Deus para que os meus pés não ficassem tão compridos como os do meu pai. (…)
excerto de entrevista a Pina Bausch, O Teatro de Pina Bausch, Leonetta Bentivoglio, edições ACARTE, 1994
15.4.09
13.4.09
DECISÕES
Devemos ser capazes de superar facilmente um estado lastimável, ainda que com uma energia forçada. Levanto-me da poltrona, dou a volta à mesa, solto a cabeça e o pescoço, deixo os olhos ganhar luz, distendo os músculos à sua volta. Vou ao encontro de todos os sentimentos, recebo A. de forma esfuziante quando ele chegar, aceito amavelmente B. na minha sala, absorvo sofregamente, quando vem C., tudo o que se diz, apesar do sofrimento e do esforço. Mas, mesmo que as coisas se passem assim, cada erro que não possa ser evitado entrevará tudo, o que é leve e o que é pesado, e eu vou ter de andar para trás em círculo. Por isso, o melhor conselho é aceitar tudo, comportarmo-nos como uma massa pesada e, ainda que nos sintamos impelidos por um vendaval, não ceder à tentação de dar um único passo desnecessário, olhar para os outros com olhos de bicho, não sentir o menor arrependimento, esmagar com as próprias mãos aquilo que ainda resta da vida como um fantasma, ou seja, aumentar ainda o último silêncio, próprio do túmulo, e não aceitar mais nada a não ser ele. Um gesto característico de um estado de espírito como este é o de passar com o dedo mínimo pelas sobrancelhas.
Kafka, Meditação / Parábolas e Fragmentos
[gesto 16, excluído do espectáculo "Atravessando as palavras há restos de luz", in Livro de Gestos, no programa do espectáculo]
Devemos ser capazes de superar facilmente um estado lastimável, ainda que com uma energia forçada. Levanto-me da poltrona, dou a volta à mesa, solto a cabeça e o pescoço, deixo os olhos ganhar luz, distendo os músculos à sua volta. Vou ao encontro de todos os sentimentos, recebo A. de forma esfuziante quando ele chegar, aceito amavelmente B. na minha sala, absorvo sofregamente, quando vem C., tudo o que se diz, apesar do sofrimento e do esforço. Mas, mesmo que as coisas se passem assim, cada erro que não possa ser evitado entrevará tudo, o que é leve e o que é pesado, e eu vou ter de andar para trás em círculo. Por isso, o melhor conselho é aceitar tudo, comportarmo-nos como uma massa pesada e, ainda que nos sintamos impelidos por um vendaval, não ceder à tentação de dar um único passo desnecessário, olhar para os outros com olhos de bicho, não sentir o menor arrependimento, esmagar com as próprias mãos aquilo que ainda resta da vida como um fantasma, ou seja, aumentar ainda o último silêncio, próprio do túmulo, e não aceitar mais nada a não ser ele. Um gesto característico de um estado de espírito como este é o de passar com o dedo mínimo pelas sobrancelhas.
Kafka, Meditação / Parábolas e Fragmentos
[gesto 16, excluído do espectáculo "Atravessando as palavras há restos de luz", in Livro de Gestos, no programa do espectáculo]
6.4.09
29.3.09
16.3.09
10.3.09


“Em maio de 1921, escrevi um soneto que Ludwig Winder publicou no suplemento dominical da Boêmia.
Kafka disse-me na ocasião: “O senhor descreve o poeta como um ser de estatura prodigiosa, cujos pés estão na terra, enquanto a cabeça desaparece nas nuvens. É naturalmente uma imagem bem habitual no âmbito das representações convencionais da pequena burguesia. É uma ilusão, oriunda de desejos ocultos, que nada tem com a realidade. O poeta sempre é na realidade muito menor e mais fraco que a média da sociedade. Por isso sente o peso da existência terrestre com muito mais intensidade e força que os outros homens. Para ele, pessoalmente, cantar não passa de um modo de gritar. Para o artista a arte é um sofrimento, com a qual ele se libera para um novo sofrimento. Ele não é um gigante, porém um pássaro mais ou menos multicor na gaiola da existência- O senhor também? – perguntei eu.
- Sou um pássaro completamente impossível – disse Franz Kafka. – Sou uma chuca – um Kavka. O carvoeiro do Teinhof tem uma. O senhor já viu?
- Sim, ela fica correndo na frente da loja dele.
- Pois é, minha parenta tem mais sorte que eu. É bem verdade que lhe cortaram as asas. No meu caso, em compensação, isso nem foi preciso, pois minhas asas se atrofiaram. Esse é o motivo por que para mim não existem alturas nem distâncias. Desamparado, vou saltitando entre os homens. Eles me observam com grande desconfiança. Pois, afinal, sou um pássaro perigoso, um gatuno, uma chuca. Mas é só aparência. Na verdade não tenho percepção alguma das coisas que brilham. Essa é a razão pela qual nem sequer tenho penas pretas e brilhantes. Tenho a cor da cinza. Uma chuca que sonha desaparecer entre as pedras. Mas é só uma brincadeira, para o senhor perceber que hoje não estou bom”.
Gustav Janouch (Conversations avec Kafka), excerto citado por R. Barthes em um dos seminário sobre “O Neutro” ministrados no Collège de France entre 1977 e 78. (O Neutro. Anotações de aulas e seminários ministrados no Collège de France, 1977/1978. Texto estabelecido por Thomas Clerc. Tradução Ivone Castilho Benedetti. São Paulo : Martins Fontes, 2003. PP. 266-267).
8.3.09
CAVATERRA Circolando
© Edward Stacchini
Espectáculo transdisciplinar, “Cavaterra” é a primeira criação da Circolando pensada especificamente para sala. Teatro dançado, teatro de imagens, conta, sem palavras, histórias das profundezas da terra.
Longe das abordagens realistas e politizadas do universo das minas, “Cavaterra” faz o elogio poético de matérias, cores e sensações. A terra, a pedra, o carvão. O preto, o castanho e o ocre. A noite e a luz. A solidão, a exaustão e a deformação de um corpo de trabalho.
“Cavaterra” inventa o sonho de homens-toupeira. Traz a beleza e o espanto ao mundo do medo, do cansaço e da exploração. (in folha de sala TAGV / XI Semana Cultural da Universidade de Coimbra)
Direcção Artística: André Braga e Cláudia Figueiredo
Interpretação: Alberto Carvalhal, André Braga, João Vladimiro e Patrick Murys
CIRCOLANDO
R. Sta Catarina
1207 4º esq frt
4000-457 PORTO
telf. 22 518 91 57
telm 93 6272636
www.circolando.com

VLCD!Teatro Meridional
© Margarida Dias
"VLCD!" é um espectáculo que, através do humor e do absurdo, versa sobre a velocidade. A mesma que conduz nos tempos modernos o ser humano a um nível de vida material que se dissocia da sua própria felicidade. A mesma onde um olhar mais atento (quiçá mais lento…) podia também identificá-la como o verdadeiro truque de uma sociedade de consumo. (in folha de sala TAGV / XI Semana Cultural da Universidade de Coimbra)
Direcção Cénica - Nuno Pino Custódio
Interpretação - Carla Maciel, Fernando Mota, Luciano Amarelo, Miguel Seabra
TEATRO MERIDIONAL
ASSOCIAÇÃO MERIDIONAL DE CULTURA
Rua do Açúcar, 64 - Beco da Mitra
1950-009 LISBOA
Tel.: 21 868 92 45 Fax: 21 868 92 47
Tlm: 91 781 43 53
www.teatromeridional.net
2.3.09
23.2.09
10.2.09
Quando penso no Choupal, surge-me, logo de seguida, "até à Lapa" e quase estremeço, numa espécie de alergia a um ícon musical sobre Coimbra, utilizado até à exaustão.
Depois lembro-me das tardes de brincadeira com o meu filho e recupero a memória devida das árvores simpáticas à beira-rio.
Há muito que deixámos asfixiar o verde do Choupal com a construção de uma ferrovia fundamental, estradas, cogumelos de betão e preparávamo-nos, agora, com o parecer positivo do Ministério do Ambiente, para a construção de um viaduto,com seis faixas de rodagem e mais uma travessia sobre o rio, prolongando o IC2.
A contestar esta decisão há um Movimento Cívico Plataforma do Choupal que lançou uma petição e já reuniu mais de 5000 assinaturas, para parar este processo.
O(s) escriba(s) deste sítio já assinaram. Também pode fazê-lo em www.petitiononline.com/choupal/
Depois lembro-me das tardes de brincadeira com o meu filho e recupero a memória devida das árvores simpáticas à beira-rio.
Há muito que deixámos asfixiar o verde do Choupal com a construção de uma ferrovia fundamental, estradas, cogumelos de betão e preparávamo-nos, agora, com o parecer positivo do Ministério do Ambiente, para a construção de um viaduto,com seis faixas de rodagem e mais uma travessia sobre o rio, prolongando o IC2.
A contestar esta decisão há um Movimento Cívico Plataforma do Choupal que lançou uma petição e já reuniu mais de 5000 assinaturas, para parar este processo.
O(s) escriba(s) deste sítio já assinaram. Também pode fazê-lo em www.petitiononline.com/choupal/
6.2.09
3.2.09
1.2.09
27.1.09
A menina X foi outra vez ao cinema. "Vicky Cristina Barcelona", de Woody Allen, foi a sua escolha, contrariando o senhor X, que lhe chamou subfilme.
A menina X é fan de "Manhanttan", de "Ana e as Suas Irmãs", de "A Rosa Púrpura do Cairo" e decidiu escrever, em defesa de Woody Allen, que o "filmezito" é uma ironia desconfortável sobre a impossibilidade do amor, um olhar sobre uma certa classe média, aburguesada, ociosa, insatisfeita e perdida na sua vidinha. Tem dois actores fantásticos — Javier Bardem e Penélope Cruz.
Há ainda uma canção bonita sobre Barcelona, cantada por "Giulia y los Tellarini.
A menina X é fan de "Manhanttan", de "Ana e as Suas Irmãs", de "A Rosa Púrpura do Cairo" e decidiu escrever, em defesa de Woody Allen, que o "filmezito" é uma ironia desconfortável sobre a impossibilidade do amor, um olhar sobre uma certa classe média, aburguesada, ociosa, insatisfeita e perdida na sua vidinha. Tem dois actores fantásticos — Javier Bardem e Penélope Cruz.
Há ainda uma canção bonita sobre Barcelona, cantada por "Giulia y los Tellarini.
24.1.09
A menina X foi ao cinema e chorou como uma catarata. Com ranho e tudo, como comprova o senhor X, que foi obrigado a emprestar-lhe, de urgência, o seu lenço de monograma, bordado por mim.
Há filmes que são construídos para podermos dar aso a uma espécie de catarse colectiva. Emocionam, com uma receita muito simples e infalível. Uma história de amor, que se vai desenvolvendo num contexto histórico dramático, de preferência distanciado e com solução aparente, que é para o mal-estar, apesar de tudo, não ser demasiado. Depois, num crescendo, lá vamos — primeiro uma lágrima, mais duas, três…
Bem escondemos o rosto com a ponta dos cabelos, enterramo-nos na cadeira, fingimos tossicar, pensamos em coisas divertidas, mas a nossa imaginação, para contrariar, insiste em dar-nos o pior de nós e não há nada a fazer… Eis que o fim do filme se aproxima, sem tréguas, e as luzes se acendem na sala, abruptamente, mesmo antes de passar a ficha técnica… E somos apanhados com os olhos vermelhos e um maço de lenços de papel, no "coiso" das pipocas!
Há filmes que são construídos para podermos dar aso a uma espécie de catarse colectiva. Emocionam, com uma receita muito simples e infalível. Uma história de amor, que se vai desenvolvendo num contexto histórico dramático, de preferência distanciado e com solução aparente, que é para o mal-estar, apesar de tudo, não ser demasiado. Depois, num crescendo, lá vamos — primeiro uma lágrima, mais duas, três…
Bem escondemos o rosto com a ponta dos cabelos, enterramo-nos na cadeira, fingimos tossicar, pensamos em coisas divertidas, mas a nossa imaginação, para contrariar, insiste em dar-nos o pior de nós e não há nada a fazer… Eis que o fim do filme se aproxima, sem tréguas, e as luzes se acendem na sala, abruptamente, mesmo antes de passar a ficha técnica… E somos apanhados com os olhos vermelhos e um maço de lenços de papel, no "coiso" das pipocas!
23.1.09
17.1.09
É Janeiro e o gato malhado, desta repartição, corre sérios riscos de ser, oficialmente, despachado para a Casa Branca. Os seus serviços de miador experimental com temas barrocos variados, têm atingido uma tal excelência que seriam, certamente, de grande utilidade e inspiração, na sala oval, ou mesmo no gabinete de crise, em parceria com os latidos do cão de água português.
16.1.09
15.1.09
O senhor X, influenciado pelo pessoal da repartição, lá aderiu ao “facebook”, mas escreveu no seu perfil: — Passamos longos períodos internáuticos, sentados frente a um computador, investigando, compulsivamente, a essência do tudo e do nada, perorando, superficialmente, sobre as complexidades várias do mundo, comunicando obsessivamente…
No futuro, seremos obesos e usaremos, todos, óculos garrafais, como os da Irmã Lúcia.
Á distância de um google-clic, temos todas as opiniões e o respectivo contraditório, a comunidade inteira nos seus vários sectores, tendências, sensibilidades, esquerdas, direitas, liberais, radicais, justos, injustos, o conhecimento formatado, a verdade que escolhemos e os mimos virtuais.
“Creaturae Comunicabilis”! Sempre ligados!
É também por isto — concluiu o senhor X — que as praças das nossas cidades estão vazias, os cafés, as ruas, os cinemas, os teatros e, ultimamente, até os estádios. Apesar desta fúria de comunicação, é de um homem solitário, obeso e com óculos garrafais que escrevo.
No futuro, seremos obesos e usaremos, todos, óculos garrafais, como os da Irmã Lúcia.
Á distância de um google-clic, temos todas as opiniões e o respectivo contraditório, a comunidade inteira nos seus vários sectores, tendências, sensibilidades, esquerdas, direitas, liberais, radicais, justos, injustos, o conhecimento formatado, a verdade que escolhemos e os mimos virtuais.
“Creaturae Comunicabilis”! Sempre ligados!
É também por isto — concluiu o senhor X — que as praças das nossas cidades estão vazias, os cafés, as ruas, os cinemas, os teatros e, ultimamente, até os estádios. Apesar desta fúria de comunicação, é de um homem solitário, obeso e com óculos garrafais que escrevo.
14.1.09
9.1.09
700 Máscaras à Procura de Um Rosto
ou Um Artista da Fome
instalação teatral de ANTÓNIO JORGE
texto de FRANZ KAFKA
A ESCOLA DA NOITE
Teatro da Cerca de São Bernardo até 17 de Janeiro
21h30, aos sábados com sessão também ás 18h30
A arte é de uma inutilidade tão grande como o sonho e a liberdade. É um exercício de ócio laborioso que nos devolve à condição humilde de eternos curiosos aprendizes. Na precipitação dos tempos modernos e fora dos grandes centros é, ainda mais, um acto de resistência.
A minha experiência artística é no essencial a de um fazedor de teatro. O Teatro preenche uma parte significativa das minhas necessidades e apazigua o meu conflito com a palavra. Embora a apropriação da palavra escrita feita espaço, corpo e acção seja um privilégio maior tem, por natureza, as suas fragilidades e, sobretudo, sobrevive mal ao momento, à indiferença e à ignorância. Assim, de forma complementar, a insatisfação e a dúvida levaram-me, através da manualidade e partindo dos impulsos primitivos como qualquer artesão de tradição popular, a procurar outros caminhos. Foi na máscara que descobri um suporte alternativo de experimentação e comunicação. A máscara é um espaço de síntese, poderoso e polissémico. A máscara, sei-o melhor agora, consegue ser verbo antes do verbo, é matéria concreta e língua
universal e, ao contrário da palavra, está condenada a não mentir e a
perdurar(…).
António Jorge, excerto de texto, no programa do espectáculo
ou Um Artista da Fome
instalação teatral de ANTÓNIO JORGE
texto de FRANZ KAFKA
A ESCOLA DA NOITE
Teatro da Cerca de São Bernardo até 17 de Janeiro
21h30, aos sábados com sessão também ás 18h30
A arte é de uma inutilidade tão grande como o sonho e a liberdade. É um exercício de ócio laborioso que nos devolve à condição humilde de eternos curiosos aprendizes. Na precipitação dos tempos modernos e fora dos grandes centros é, ainda mais, um acto de resistência.
A minha experiência artística é no essencial a de um fazedor de teatro. O Teatro preenche uma parte significativa das minhas necessidades e apazigua o meu conflito com a palavra. Embora a apropriação da palavra escrita feita espaço, corpo e acção seja um privilégio maior tem, por natureza, as suas fragilidades e, sobretudo, sobrevive mal ao momento, à indiferença e à ignorância. Assim, de forma complementar, a insatisfação e a dúvida levaram-me, através da manualidade e partindo dos impulsos primitivos como qualquer artesão de tradição popular, a procurar outros caminhos. Foi na máscara que descobri um suporte alternativo de experimentação e comunicação. A máscara é um espaço de síntese, poderoso e polissémico. A máscara, sei-o melhor agora, consegue ser verbo antes do verbo, é matéria concreta e língua
universal e, ao contrário da palavra, está condenada a não mentir e a
perdurar(…).
António Jorge, excerto de texto, no programa do espectáculo
5.1.09
4.1.09

© Ismail Zaydeh/reuters
Gaza
É absolutamente assombroso como, para nós, ocidentais civilizados, estas pessoas não são pessoas. São o outro, são ícones de um inimigo civilizacional que têm costumes estranhos, que ainda choram publicamente os seus mortos, que andam de barba (como o meu avô, aliás), de lenço na cabeça (como a minha avó, de resto...), que não aceitam bem a civilizada superioridade branca...
Quando há guerra em Sarajevo, é uma cidade como Aveiro (só maior...) que está em guerra. Quando Belgrado é bombardeada é uma cidade como o Porto, com pessoas como as do Porto, que está a ser bombardeada! Gaza é aqui.
comentário anónimo no turbocaneta
2.1.09
A menina X suspirou e escreveu; corre um vento doidinho de mudança, tipo…
O ser assanhado encolheu os ombros e concluiu; está tudo na mesma, a rua é a mesma, a chuva é a mesma, os montes são os mesmos… e a europa é a mesma… lá longe!
A rapariga dos desenhos teve um entusiasmo azul, mas nunca mais se faz luz…
O senhor X gritou um "bons dias" arrebatado, mas passou os olhos pela capa do jornal e a sua testa enrugou-se, de forma dramática…
O ser assanhado encolheu os ombros e concluiu; está tudo na mesma, a rua é a mesma, a chuva é a mesma, os montes são os mesmos… e a europa é a mesma… lá longe!
A rapariga dos desenhos teve um entusiasmo azul, mas nunca mais se faz luz…
O senhor X gritou um "bons dias" arrebatado, mas passou os olhos pela capa do jornal e a sua testa enrugou-se, de forma dramática…
30.12.08
Economia X
Talvez, porque esta seja uma época de boa vontade entre os homens, o senhor X decidiu deitar abaixo a parede do seu gabinete e juntou-se aos restantes mangas de alpaca, desta micro empresa em vias de crescimento, naquilo que apelidou de sistema horizontal de responsabilidades paralelas e mútua confiança.
Renunciou, ainda, a algumas regalias de chefe: monovolume, de vidros bassos, com motorista; cartão de crédito para despesas ilimitadas de representação; triplo ordenado de chefe; complemento para pensamentos de valor acrescentado; subsídio para visões de topo, o que lhe permitiu fazer investimentos em novas tecnologias, equilibrar os vencimentos dos restantes funcionários e, principalmente, reconquistar a menina X que, feliz, decidiu brindá-lo, em plena reunião geral de trabalhadores, com um dos seus beijos de cor carmim.
Talvez, porque esta seja uma época de boa vontade entre os homens, o senhor X decidiu deitar abaixo a parede do seu gabinete e juntou-se aos restantes mangas de alpaca, desta micro empresa em vias de crescimento, naquilo que apelidou de sistema horizontal de responsabilidades paralelas e mútua confiança.
Renunciou, ainda, a algumas regalias de chefe: monovolume, de vidros bassos, com motorista; cartão de crédito para despesas ilimitadas de representação; triplo ordenado de chefe; complemento para pensamentos de valor acrescentado; subsídio para visões de topo, o que lhe permitiu fazer investimentos em novas tecnologias, equilibrar os vencimentos dos restantes funcionários e, principalmente, reconquistar a menina X que, feliz, decidiu brindá-lo, em plena reunião geral de trabalhadores, com um dos seus beijos de cor carmim.
26.12.08
19.12.08
Contribuição assanhada 1
Sou um gato malhado de janela e, apesar de insistirem nessa estranha e xenófoba teoria de que não sou um ser pensante, devo avisar-vos de que estão enganados e de que muitas das minhas reflexões são bem mais elaboradas e profundas do que as de muitos bípedes que circulam, apressadamente, nas ruas aqui por baixo.
Aliás, devo acrescentar que me sinto especialmente produtivo e acutilante, desde que a árvore, aqui em frente, deixou cair todas as suas folhas, pois consigo alcançar muito mais mundo.
Muito lá à frente, depois daqueles montes nevados, fica a Europa. Nós, sempre na cauda, em lento compasso, "retraídos" e suspirantes!
Este ano, nem mesmo as luzes natalícias conseguiram devolver alguma graça ao mundo, pelo menos ao mundo da minha janela.
Sou um gato malhado de janela e, apesar de insistirem nessa estranha e xenófoba teoria de que não sou um ser pensante, devo avisar-vos de que estão enganados e de que muitas das minhas reflexões são bem mais elaboradas e profundas do que as de muitos bípedes que circulam, apressadamente, nas ruas aqui por baixo.
Aliás, devo acrescentar que me sinto especialmente produtivo e acutilante, desde que a árvore, aqui em frente, deixou cair todas as suas folhas, pois consigo alcançar muito mais mundo.
Muito lá à frente, depois daqueles montes nevados, fica a Europa. Nós, sempre na cauda, em lento compasso, "retraídos" e suspirantes!
Este ano, nem mesmo as luzes natalícias conseguiram devolver alguma graça ao mundo, pelo menos ao mundo da minha janela.
16.12.08
13.12.08
Afinal, a caneta especial tipo… da menina X é um lápis, com um coração quadriculado na ponta. A menina X acaba de ser seleccionada de um grupo de vários entrevistados concorrentes e irá fazer parte dos quadros deste micro grupo empresarial recém remodelado.
O ser peludo, lá de casa, também garantiu o seu posto de escriba assíduo, com as suas CONTRIBUIÇÕES ASSANHADAS, de peridiocidade a definir.
O ser peludo, lá de casa, também garantiu o seu posto de escriba assíduo, com as suas CONTRIBUIÇÕES ASSANHADAS, de peridiocidade a definir.
12.12.08
No seu estatuto de director presidente in chefe deste sítio, o senhor X enviou-me um mail acusando-me de abuso de ausência sistemática e injustificada e ameaçou despedir-me.
Expliquei-me… que havia setecentas criaturas e ainda uma outra (a pior!) que só agora serenavam e anuiam na minha libertação mas respondeu-me que se preparava para contratar canetas novas e reestruturar este sítio, por isso, ou voltava depressa, ou poderia adoptar um novo lugar de "funcionária out".
… é claro que podia imaginar o senhor X… no seu computador pré choque tecnológico… a rir-se… com os óculos na ponta do nariz… convencido de que tinha conseguido intimidar-me, armado em chefe autoritário da coisa pública. E, entretanto, um outro mail. — Prepare-se para uma avaliaçãozinha!
Expliquei-me… que havia setecentas criaturas e ainda uma outra (a pior!) que só agora serenavam e anuiam na minha libertação mas respondeu-me que se preparava para contratar canetas novas e reestruturar este sítio, por isso, ou voltava depressa, ou poderia adoptar um novo lugar de "funcionária out".
… é claro que podia imaginar o senhor X… no seu computador pré choque tecnológico… a rir-se… com os óculos na ponta do nariz… convencido de que tinha conseguido intimidar-me, armado em chefe autoritário da coisa pública. E, entretanto, um outro mail. — Prepare-se para uma avaliaçãozinha!
11.12.08
3.12.08
2.12.08
1.12.08
28.11.08
O senhor X determinou que não podíamos andar a "encher chouriços" no argumento da sua blog(o) novela e regressou de Paris, ontem mesmo, com a menina X.
Por um lado, era eu que andava a tentar transformar os seus devaneios em desenho e esperava assim poder esticar o tempo, esticando também as histórias. Por outro lado, a menina X não me simplifica a tarefa e todos os dias tem novas instruções e exigências sobre a sua personagem.
Lá fui buscá-los ao aeroporto e apercebi-me de alguma tensão entre os dois, especialmente, no momento de arrumar as cinco malas e um saquinho, no carro. Após muita tentativa, cálculos de volumetria e muita discussão, lá regressámos enlatados, em amuo colectivo, ao som de "Divine Comedy".
Por um lado, era eu que andava a tentar transformar os seus devaneios em desenho e esperava assim poder esticar o tempo, esticando também as histórias. Por outro lado, a menina X não me simplifica a tarefa e todos os dias tem novas instruções e exigências sobre a sua personagem.
Lá fui buscá-los ao aeroporto e apercebi-me de alguma tensão entre os dois, especialmente, no momento de arrumar as cinco malas e um saquinho, no carro. Após muita tentativa, cálculos de volumetria e muita discussão, lá regressámos enlatados, em amuo colectivo, ao som de "Divine Comedy".
26.11.08
20.11.08
Tentei dissuadir o senhor X de interromper, abruptamente, a sua blog(o) novela, dizendo-lhe que Madame Lagafffe estava a exercitar a sua ironia, logo a seguir ao almoço, no calor da conversa…
Apesar de tudo, preferia voltar — respondeu-me convicto.
A-vizinha-do-quarto-andar chama-se, agora, menina X e vai chegar com as suas cinco malas cheias de objectos fundamentais.
Lá em casa, vamos parecer "A Comunidade" do Luiz Pacheco. O gato já se ofereceu para dormir no colo da menina X, o interveniente-sentado-na-cadeira-de-verga-a-olhar-para-a-janela decidiu, finalmente, ensaiar uma nova desordem para o seu quarto e encontrar algum espaço, sob a profusão de fios eléctricos ensarilhados, os cinco rádios, a emitirem, simultaneamente, em diferentes ondas e frequências e as revistas, empilhadas em vários montes simétricos.
A menina X vai também poder utilizar este sítio e ter uma caneta especial, tipo…
Apesar de tudo, preferia voltar — respondeu-me convicto.
A-vizinha-do-quarto-andar chama-se, agora, menina X e vai chegar com as suas cinco malas cheias de objectos fundamentais.
Lá em casa, vamos parecer "A Comunidade" do Luiz Pacheco. O gato já se ofereceu para dormir no colo da menina X, o interveniente-sentado-na-cadeira-de-verga-a-olhar-para-a-janela decidiu, finalmente, ensaiar uma nova desordem para o seu quarto e encontrar algum espaço, sob a profusão de fios eléctricos ensarilhados, os cinco rádios, a emitirem, simultaneamente, em diferentes ondas e frequências e as revistas, empilhadas em vários montes simétricos.
A menina X vai também poder utilizar este sítio e ter uma caneta especial, tipo…
19.11.08
18.11.08
14.11.08
Recebemos um postal, muito breve, enviado pelo senhor X.
Ainda não vi a Torre Eiffel. Fico ainda algum tempo! — Assim escreveu, numa caligrafia a preceito, rematando com uma assinatura barroca… a esferográfica… de tinta verde choque… e cheiro a limão.
O gato, o-interveniente-sentado-na-cadeira-de-verga-a-olhar-para-a-janela e eu própria sentimo-nos como que espoliados.
Na sua secretária, ficou a caneta de tinta permanente com aparo reluzente e o caderninho de apontamentos…
Ter-se-á esquecido?!… Se calhar, decidiu ser outro X e encaixar, definitivamente, no universo POP CHOC da vizinha-do-quarto-andar.
Ainda não vi a Torre Eiffel. Fico ainda algum tempo! — Assim escreveu, numa caligrafia a preceito, rematando com uma assinatura barroca… a esferográfica… de tinta verde choque… e cheiro a limão.
O gato, o-interveniente-sentado-na-cadeira-de-verga-a-olhar-para-a-janela e eu própria sentimo-nos como que espoliados.
Na sua secretária, ficou a caneta de tinta permanente com aparo reluzente e o caderninho de apontamentos…
Ter-se-á esquecido?!… Se calhar, decidiu ser outro X e encaixar, definitivamente, no universo POP CHOC da vizinha-do-quarto-andar.
13.11.08
O senhor X anda muito atarefado com os preparativos da sua viagem a Paris. Encontrou um voo lowcost na net e pediu-me que lhe arranjasse um monograma para bordar nas suas camisas… Ou teria sido um monograma para, EU, bordar nas suas camisas?!
Na verdade, tive ainda de produzir um autocolante, que colocou na sua mala com o seguinte escrito: JE M'EN FOUS DE SARKOZY, J'AIME LE THÉÂTRE!
O senhor X, assim que chegar a Paris, passará pelo Eliseu para um solene protesto e, só depois, terá o seu happy beginning com a-vizinha-do-quarto-andar.
Na verdade, tive ainda de produzir um autocolante, que colocou na sua mala com o seguinte escrito: JE M'EN FOUS DE SARKOZY, J'AIME LE THÉÂTRE!
O senhor X, assim que chegar a Paris, passará pelo Eliseu para um solene protesto e, só depois, terá o seu happy beginning com a-vizinha-do-quarto-andar.
12.11.08
Abri a caixa de correio e, no meio das minhas contas a pagar, um postal colorido com uma Torre Eiffel, destinado ao senhor X.
Assim que lho entreguei, o seu rosto reacendeu-se e o senhor X elevou-se como uma personagem de Chagall.
Anda agora por aí, às voltas sobre os telhados, a gritar o seu amor perfeito e a sua vizinha-do-quarto-andar recuperada.
O gato, muito inquieto, produz uns ruídos estranhos, os mesmos que faz aos pássaros desmiolados, que voam nos céus da sua janela.
Assim que lho entreguei, o seu rosto reacendeu-se e o senhor X elevou-se como uma personagem de Chagall.
Anda agora por aí, às voltas sobre os telhados, a gritar o seu amor perfeito e a sua vizinha-do-quarto-andar recuperada.
O gato, muito inquieto, produz uns ruídos estranhos, os mesmos que faz aos pássaros desmiolados, que voam nos céus da sua janela.
8.11.08
7.11.08
5.11.08
RARA MANHÃ DE OPTIMISMO
A manhã fez-se azul e solarenga, após a longa maratona eleitoral nocturna. O senhor X saiu cedo de casa e encontrei-o na esplanada do café Santa Cruz. Olheirento, bebia uma taça de champanhe e comia castanhas assadas. Disse-me que o mundo acordara melhor.
O senhor X é um optimista… e o mundo precisa de mais manhãs de optimismo.
De seguida, pediu-me que lhe emprestasse dinheiro para o almoço…
A manhã fez-se azul e solarenga, após a longa maratona eleitoral nocturna. O senhor X saiu cedo de casa e encontrei-o na esplanada do café Santa Cruz. Olheirento, bebia uma taça de champanhe e comia castanhas assadas. Disse-me que o mundo acordara melhor.
O senhor X é um optimista… e o mundo precisa de mais manhãs de optimismo.
De seguida, pediu-me que lhe emprestasse dinheiro para o almoço…
31.10.08
29.10.08
O senhor X decidiu embezerrar e está, há dias, fechado no seu quarto, como se estivesse em greve do mundo. O pior é que anexou o meu gato, que permanece ronronante e solidário, na cabeceira da sua cama.
Hoje, decidi acabar com isto e fui bater-lhe à porta. — Então, senhor X, anime-se! — Nada, nem um som. — Vá lá, homem, vem aí um filme novo do Kusturica. — Silêncio, nem mesmo o gato se ouve. — Somos o único blogue, no mundo, que não expressou ainda a sua orientação de voto, nas eleições americanas… — Foi então que a chave rodou, lentamente, na fechadura e o senhor X me apareceu, olheirento e cambaleante. Entregou-me um papel onde tinha escrito: CHANGE, WE NEED! E, depois, sussurrou-me — Para vice-presidente… a vizinha do quarto andar!
Hoje, decidi acabar com isto e fui bater-lhe à porta. — Então, senhor X, anime-se! — Nada, nem um som. — Vá lá, homem, vem aí um filme novo do Kusturica. — Silêncio, nem mesmo o gato se ouve. — Somos o único blogue, no mundo, que não expressou ainda a sua orientação de voto, nas eleições americanas… — Foi então que a chave rodou, lentamente, na fechadura e o senhor X me apareceu, olheirento e cambaleante. Entregou-me um papel onde tinha escrito: CHANGE, WE NEED! E, depois, sussurrou-me — Para vice-presidente… a vizinha do quarto andar!
25.10.08
O senhor X, que substima os problemas técnicos e cromáticos deste blogue, a crise económica mundial e outros males que proliferam por aí, resolveu que as suas atenções eram todas da vizinha do quarto andar e transformou-se no maior pinga-amor de que há memória.
Com frequência, fica ausente e suspirante, escreve poemas e rimas manhosas no seu caderninho e, há dias, quando me preparava para provar a deliciosa tarte que encontrei no frigorífico, impediu-me, gritando que era para E-L-A.
Pensei que este E-L-A, arrebatador e sonante, significava um movimento importante, com reuniões clandestinas de chá e bolinhos, ou que então se tratava de uma qualquer divindade e que o senhor X se tornara um fanático religioso, mas, nunca, que a-fantástica-tarte-de-mirtilos-e-framboesas, que tinha sido cozinhada por si, se destinava, inteira, à vizinha do quarto andar.
Ainda não refeita desta cena, fui dar com o senhor X, muito concentrado, a tricotar o que parecia ser um vestido de lã vermelha. Perguntei-lhe se não estaria a exagerar, se não era um empreendimento de alto risco… E se as medidas não se ajustassem? É que nunca sabemos, de que ilusões de óptica não é capaz um pinga-amor!…
Na manhã seguinte, de saída para o trabalho, deparei-me com um senhor X muito apressado, galgando as escadas do prédio. Transportava uma caixa para bolos, um cabide com um vestido, um ramo de margaridas e o seu caderninho, no bolso do casaco dos acontecimentos especiais.
Ainda pensei gritar-lhe que estava prestes a meter-se numa grande alhada, mas pareceu-me que não tinha intenção de me dar ouvidos e, por isso, desisti.
Quando regressei, ao fim do dia, uma penumbra invernosa sobre a sala e o senhor X, ainda na sua indumentária de cerimónia, permanecia em absoluto silêncio, como se estivesse ali há horas. Decidi não dizer nada e fui apanhando os vários objectos que havia transportado pela manhã e que jaziam agora, espalhados pelo chão.
Felizmente, a-fantástica-tarte-de-mirtilos-e-framboesas tinha sobrevivido ao que parecia ter sido uma catástrofe. Convenci-o de que era melhor comê-la quanto antes e fui buscar a garrafa de Periquita, que tinha guardado para uma ocasião especial.
Só ao terceiro copo, revelou que a vizinha fatal se mudara para outra cidade, outro qualquer quarto andar… Olhou para a sua magnífica obra de tricôt e perguntou-me o que haveria de fazer daquilo. Foi então, que o seu rosto pareceu iluminar-se… mas logo entristeceu e aconteceu o pior; atreveu-se a considerar que, a mim, não me serviria…
Com frequência, fica ausente e suspirante, escreve poemas e rimas manhosas no seu caderninho e, há dias, quando me preparava para provar a deliciosa tarte que encontrei no frigorífico, impediu-me, gritando que era para E-L-A.
Pensei que este E-L-A, arrebatador e sonante, significava um movimento importante, com reuniões clandestinas de chá e bolinhos, ou que então se tratava de uma qualquer divindade e que o senhor X se tornara um fanático religioso, mas, nunca, que a-fantástica-tarte-de-mirtilos-e-framboesas, que tinha sido cozinhada por si, se destinava, inteira, à vizinha do quarto andar.
Ainda não refeita desta cena, fui dar com o senhor X, muito concentrado, a tricotar o que parecia ser um vestido de lã vermelha. Perguntei-lhe se não estaria a exagerar, se não era um empreendimento de alto risco… E se as medidas não se ajustassem? É que nunca sabemos, de que ilusões de óptica não é capaz um pinga-amor!…
Na manhã seguinte, de saída para o trabalho, deparei-me com um senhor X muito apressado, galgando as escadas do prédio. Transportava uma caixa para bolos, um cabide com um vestido, um ramo de margaridas e o seu caderninho, no bolso do casaco dos acontecimentos especiais.
Ainda pensei gritar-lhe que estava prestes a meter-se numa grande alhada, mas pareceu-me que não tinha intenção de me dar ouvidos e, por isso, desisti.
Quando regressei, ao fim do dia, uma penumbra invernosa sobre a sala e o senhor X, ainda na sua indumentária de cerimónia, permanecia em absoluto silêncio, como se estivesse ali há horas. Decidi não dizer nada e fui apanhando os vários objectos que havia transportado pela manhã e que jaziam agora, espalhados pelo chão.
Felizmente, a-fantástica-tarte-de-mirtilos-e-framboesas tinha sobrevivido ao que parecia ter sido uma catástrofe. Convenci-o de que era melhor comê-la quanto antes e fui buscar a garrafa de Periquita, que tinha guardado para uma ocasião especial.
Só ao terceiro copo, revelou que a vizinha fatal se mudara para outra cidade, outro qualquer quarto andar… Olhou para a sua magnífica obra de tricôt e perguntou-me o que haveria de fazer daquilo. Foi então, que o seu rosto pareceu iluminar-se… mas logo entristeceu e aconteceu o pior; atreveu-se a considerar que, a mim, não me serviria…
24.10.08
NOCTURNO COIMBRINHA
Colocaram-lhe umas orelhas de burro e bebeu, bebeu, voltou a beber, bebeu, hic, bebeu outro copo, mais outro, outro ainda e decidiiiiiiuuu, hic, que, quando fosse engenheiro, construiria um equipamento urbano para salvar as esquinas da cidade, dos estudantes apertados.
Nunca foi engenheiro, mas registou a patente.
Colocaram-lhe umas orelhas de burro e bebeu, bebeu, voltou a beber, bebeu, hic, bebeu outro copo, mais outro, outro ainda e decidiiiiiiuuu, hic, que, quando fosse engenheiro, construiria um equipamento urbano para salvar as esquinas da cidade, dos estudantes apertados.
Nunca foi engenheiro, mas registou a patente.
19.10.08
14.10.08
Já nos tínhamos apercebido de que esta coisa da economia é uma espécie de crença numa coisa tentacular, com ciclos e setas "up and down", algo que escapa ao entendimento do comum mortal e que se baseia em movimentos rápidos e circulares de tira dali, para investir além.
Quando ouvimos falar de vinte milhões de euros, corrijo; vinte MIL milhões de euros, que não sabemos de ondem provêm, para estimular o sector, imaginamos que haja um "dali" sem existência, calculado a partir de uns impostos que ainda teremos de pagar.
Quando ouvimos falar de vinte milhões de euros, corrijo; vinte MIL milhões de euros, que não sabemos de ondem provêm, para estimular o sector, imaginamos que haja um "dali" sem existência, calculado a partir de uns impostos que ainda teremos de pagar.
13.10.08
12.10.08
11.10.08
O senhor X, mal o Inverno se insinua na paisagem, entrega-se à nobre tarefa de tricotar camisolas.
Sentado no seu velho sofá vermelho, passa os serões a fazer malha com lãs coloridas, enquanto vai desfiando pensamentos variados, ao som da actualidade televisiva.
São camisolas com motivos antiquados, de quadrados e riscas que, depois, distribui pelos amigos. É claro, que ninguém se atreve a recusar, com a desculpa de que aquela peça não é compatível com o restante guarda-roupa. Uma vez por outra, os amigos do senhor X saem à rua, vestidos de arco-íris… Talvez os seus pensamentos se possam ler, por entre os pontos de liga e meia.
Sentado no seu velho sofá vermelho, passa os serões a fazer malha com lãs coloridas, enquanto vai desfiando pensamentos variados, ao som da actualidade televisiva.
São camisolas com motivos antiquados, de quadrados e riscas que, depois, distribui pelos amigos. É claro, que ninguém se atreve a recusar, com a desculpa de que aquela peça não é compatível com o restante guarda-roupa. Uma vez por outra, os amigos do senhor X saem à rua, vestidos de arco-íris… Talvez os seus pensamentos se possam ler, por entre os pontos de liga e meia.
7.10.08
2.10.08

Como se já não bastasse a "ruptura macro económica", eis que o meu sítio foi repentinamente acometido de uma qualquer febre verde. Todas as imagens que tento hoje utilizar são filtradas de um verde ranhoca limonete muuuuito estranho. Logo agora, que tinha umas imagens do Teatro da Cerca para partilhar.
Será uma manifestação de uma "força de bloqueio" sportinguista, verdes(ista)? Um marciano invejoso? Um castigo, por ter feito a apologia do azul absoluto? Estranho mistério, este! Irritante mistério, este. A mim, que nem sou de futebois! Quero o meu blogue de volta.
18.9.08
TNT não estreia hoje. Vai estrear, em breve, num teatro há muito ansiado, no coração da cidade, no Teatro da Cerca.
Hoje, são assinados os protocolos que permitem a instalação d'A Escola da Noite no Teatro da Cerca de São Bernardo.
Hurra, gritou o senhor X. e tirou o casaco, da naftalina, o casaco dos dias especiais.
Hoje, são assinados os protocolos que permitem a instalação d'A Escola da Noite no Teatro da Cerca de São Bernardo.
Hurra, gritou o senhor X. e tirou o casaco, da naftalina, o casaco dos dias especiais.
17.9.08
O senhor X. não gostava de ratos. Talvez porque fossem cinzentos, tivessem olhinhos de alfinete, pêlo de escovinha, ou por causa da sua cauda fininha. Sentia calafrios quando pensava em ratos, quando pensava na possibilidade de se poder cruzar com um qualquer representante da espécie. Fazia sempre a cena da Beatriz Costa, dava um gritinho, saltava para cima da mesa e subia as calças acima dos tornozelos o que lhe conferia uma imagem oposta ao seu costumeiro sério. Tinha pesadelos com ratos e achava que poderiam ser verdadeiramente tumultuosos na vida das pessoas…
16.9.08

…Que mixórdia! e que canalha eu sou quando deparo para o fundo de mim mesmo!… Mas não me julguem infeliz. Não sou infeliz. Devo confessar que depois que sou desgraçado é que me sinto mais feliz. Encontrei-me. Não tenham pena de mim. Sou o Teles que toda a gente conhece — e sou rei…
"O Rei Imaginário", Raul Brandão
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