27.1.09

A menina X foi outra vez ao cinema. "Vicky Cristina Barcelona", de Woody Allen, foi a sua escolha, contrariando o senhor X, que lhe chamou subfilme.
A menina X é fan de "Manhanttan", de "Ana e as Suas Irmãs", de "A Rosa Púrpura do Cairo" e decidiu escrever, em defesa de Woody Allen, que o "filmezito" é uma ironia desconfortável sobre a impossibilidade do amor, um olhar sobre uma certa classe média, aburguesada, ociosa, insatisfeita e perdida na sua vidinha. Tem dois actores fantásticos — Javier Bardem e Penélope Cruz.
Há ainda uma canção bonita sobre Barcelona, cantada por "Giulia y los Tellarini.

24.1.09

A menina X foi ao cinema e chorou como uma catarata. Com ranho e tudo, como comprova o senhor X, que foi obrigado a emprestar-lhe, de urgência, o seu lenço de monograma, bordado por mim.
Há filmes que são construídos para podermos dar aso a uma espécie de catarse colectiva. Emocionam, com uma receita muito simples e infalível. Uma história de amor, que se vai desenvolvendo num contexto histórico dramático, de preferência distanciado e com solução aparente, que é para o mal-estar, apesar de tudo, não ser demasiado. Depois, num crescendo, lá vamos — primeiro uma lágrima, mais duas, três…
Bem escondemos o rosto com a ponta dos cabelos, enterramo-nos na cadeira, fingimos tossicar, pensamos em coisas divertidas, mas a nossa imaginação, para contrariar, insiste em dar-nos o pior de nós e não há nada a fazer… Eis que o fim do filme se aproxima, sem tréguas, e as luzes se acendem na sala, abruptamente, mesmo antes de passar a ficha técnica… E somos apanhados com os olhos vermelhos e um maço de lenços de papel, no "coiso" das pipocas!

17.1.09

É Janeiro e o gato malhado, desta repartição, corre sérios riscos de ser, oficialmente, despachado para a Casa Branca. Os seus serviços de miador experimental com temas barrocos variados, têm atingido uma tal excelência que seriam, certamente, de grande utilidade e inspiração, na sala oval, ou mesmo no gabinete de crise, em parceria com os latidos do cão de água português.

16.1.09

A menina X escreveu:

RAPARIGAS!
tipo…
NÃO VOS CAS(ADES)!
Não vos cas(ades) com muçulmanos
com católicos
com judeus
ateus
ortodoxos
com rapazes
nem mesmo com raparigas
Simplesmente, não vos cas(ades)
… Tereis igualmente montes de sarilhos
mas tipo…

15.1.09

O senhor X, influenciado pelo pessoal da repartição, lá aderiu ao “facebook”, mas escreveu no seu perfil: — Passamos longos períodos internáuticos, sentados frente a um computador, investigando, compulsivamente, a essência do tudo e do nada, perorando, superficialmente, sobre as complexidades várias do mundo, comunicando obsessivamente…
No futuro, seremos obesos e usaremos, todos, óculos garrafais, como os da Irmã Lúcia.
Á distância de um google-clic, temos todas as opiniões e o respectivo contraditório, a comunidade inteira nos seus vários sectores, tendências, sensibilidades, esquerdas, direitas, liberais, radicais, justos, injustos, o conhecimento formatado, a verdade que escolhemos e os mimos virtuais.
“Creaturae Comunicabilis”! Sempre ligados!
É também por isto — concluiu o senhor X — que as praças das nossas cidades estão vazias, os cafés, as ruas, os cinemas, os teatros e, ultimamente, até os estádios. Apesar desta fúria de comunicação, é de um homem solitário, obeso e com óculos garrafais que escrevo.

14.1.09























a primeira agenda do Teatro da Cerca de São Bernardo
com belas fotografias de Augusto Baptista
e grafismo (de bolso) de um dos mangas de alpaca desta repartição

9.1.09

700 Máscaras à Procura de Um Rosto
ou Um Artista da Fome

instalação teatral de ANTÓNIO JORGE
texto de FRANZ KAFKA
A ESCOLA DA NOITE

Teatro da Cerca de São Bernardo até 17 de Janeiro
21h30, aos sábados com sessão também ás 18h30

A arte é de uma inutilidade tão grande como o sonho e a liberdade. É um exercício de ócio laborioso que nos devolve à condição humilde de eternos curiosos aprendizes. Na precipitação dos tempos modernos e fora dos grandes centros é, ainda mais, um acto de resistência.
A minha experiência artística é no essencial a de um fazedor de teatro. O Teatro preenche uma parte significativa das minhas necessidades e apazigua o meu conflito com a palavra. Embora a apropriação da palavra escrita feita espaço, corpo e acção seja um privilégio maior tem, por natureza, as suas fragilidades e, sobretudo, sobrevive mal ao momento, à indiferença e à ignorância. Assim, de forma complementar, a insatisfação e a dúvida levaram-me, através da manualidade e partindo dos impulsos primitivos como qualquer artesão de tradição popular, a procurar outros caminhos. Foi na máscara que descobri um suporte alternativo de experimentação e comunicação. A máscara é um espaço de síntese, poderoso e polissémico. A máscara, sei-o melhor agora, consegue ser verbo antes do verbo, é matéria concreta e língua
universal e, ao contrário da palavra, está condenada a não mentir e a
perdurar(…).

António Jorge, excerto de texto, no programa do espectáculo


4.1.09













© Ismail Zaydeh/reuters
Gaza

É absolutamente assombroso como, para nós, ocidentais civilizados, estas pessoas não são pessoas. São o outro, são ícones de um inimigo civilizacional que têm costumes estranhos, que ainda choram publicamente os seus mortos, que andam de barba (como o meu avô, aliás), de lenço na cabeça (como a minha avó, de resto...), que não aceitam bem a civilizada superioridade branca...
Quando há guerra em Sarajevo, é uma cidade como Aveiro (só maior...) que está em guerra. Quando Belgrado é bombardeada é uma cidade como o Porto, com pessoas como as do Porto, que está a ser bombardeada! Gaza é aqui.

comentário anónimo no turbocaneta

2.1.09

A menina X suspirou e escreveu; corre um vento doidinho de mudança, tipo…
O ser assanhado encolheu os ombros e concluiu; está tudo na mesma, a rua é a mesma, a chuva é a mesma, os montes são os mesmos… e a europa é a mesma… lá longe!
A rapariga dos desenhos teve um entusiasmo azul, mas nunca mais se faz luz…
O senhor X gritou um "bons dias" arrebatado, mas passou os olhos pela capa do jornal e a sua testa enrugou-se, de forma dramática…